segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ontem ao correr senti o aspirador da morte

17 horas, sol aberto, um treino de 14km, saio pelo avenida principal de Regente Feijó, aqui no extremo oeste do estado de SP,  donde se vê Presidente Prudente.
Conforme avanço em ritmo confortável, metade do céu entra em veloz mutação esquizofrênica,  escurecendo-se precisamente na direção em que eu ia.
 A chuva vem e no 2º km já me encontro embaixo dela. Mas não uma chuva qualquer, das muitas sob as quais já corri; era uma torrencial, transformando rapidamente um céu nublado-claro num outro cinza-escuro, opaco, intenso.
Enquanto eu ia, ainda animado - geralmente gosto de correr na chuva - ela vinha cada vez mais forte, com granizos a cair  toc toc em minha cabeça. Prosseguia a brincar com a natureza ao redor e de repente uma inflexível realidade se impunha a minha frente... aquela barreira dágua cada vez mais intransponível a me envolver...
O medo chegou, primeiro como receio, desconfiança de que o tempo não tava prá risos; em seguida já corria com dores , principalmente nas costelas, atrás, e nos joelhos. Medo e dor, combinação infeliz...
Corria descendo uma longa inclinação da estrada, aos 3,5km não dá mais, carros param no encostamento diante da tempestade e vento. Tento mas não dá para continuar, tudo dói e o que vejo me assombra. Preciso voltar... nesse instante um raio, acompanhado de explosivo trovão, cortou o gramado 100 metros ao lado.
Tremi todo, dou meia volta, calafrios pelo miolo da coluna chegam-me ao cérebro e isso me arrepia a pele, sinto-me mal, com temores e tremores.
Nunca pensei tanto nos deuses e porque criamos tantos na infinita linha do tempo eterno: Deus trovão, Deus Relâmpago, só para lembrar de dois pertinentes á ocasião. Pois naquele momento sinto que tive um contato forte com as forças estranhas da natureza e seus mistérios.
Lembrei-me de ter lido que se alguém estiver sob raios em campos abertos, o melhor a fazer é  abaixar-se e encolher-se parado. Não aceitei agir assim e corri aos trancos e barrancos rumo à metade do céu mais aberto, com menos chuva, ouvindo torturantes trovões e vendo a hora um raio daqueles me eletrocutar. Não quero morrer assim, pensava , e, ao falar assim comigo ,  isso me empurrava mais na fuga da torrente. Ao mesmo tempo sentia algo mais - fascinante mistério - me querendo vivo, a me levar de volta ao perímetro urbano da cidade, onde os pararraios nos postes absorvessem os raios - e  não o meu corpo em movimento, como se fosse um fio terra ambulante. Sentia-me tão pesado, encharcado, com a sensação, a um só tempo, quente e fria... queria a proteção de uma casa, toalha, cama e lençol. "Vamos, Geraldo, não páre, não se emocione, apenas corra assim... assim... devagar...cada passo um passo, valoroso passo  ...saia do pior". E tudo foi-se abrindo em mim e na atmosfera.
Ao adentrar na cidade a chuva aí ficou fininha, quase não incomodava. Incômodos eram as dores e o corpo febril. Pior que, para completar o treino, teria que correr mais 7 km. Sabia que se não o completasse ficaria muito chateado comigo mesmo. Tirei forças não sei de onde e resolvi fazê-lo dentro da cidade. Por sorte quase não havia ninguém pelas ruas, nas quais ziguezaguiei por mais 50 minutos, até completar o que calculei seriam 14 km e, portanto, treino feito!
Em casa, tomei um analgésico, comi um pouco e pelas 20:00 fui p'rá cama não necessariamente dormir mas repousar e refletir sobre o sucedido.  Febril e em paz.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Corrida de Ygaracy ao Aguiar

Dez meses depois... Muito aconteceu nesse tempo em que nada escrevi aqui. Os motivos explicarei aos poucos. Agora me interessa narrar uma corrida muito especial que realizei sozinho no sertão da Paraiba, na secular estrada de chão batido, saindo de Ygaracy até Aguiar, distânte 15km.
Assim foi: dia 10/08/11, fui de avião até João Pessoa, onde passei uma tarde-noite muito agradável  com  parentes e amigos  conterrâneos. Cedinho, na manhã de quinta, peguei ônibus até Patos, dali fui de Van até Ygaracy, cheguei pelas três da tarde e fiquei numa pousada. Armei uma rede e dormi um pouco.
Depois saí pela cidade em busca de um açude para nadar. Seguindo orientação,  andei uns 20 minutos num caminho até a beirada do açude, porém não encontrei um lugar livre dos igarapés e capins, onde pudesse cair nágua, de modo que resolvi voltar e a coisa ficou feia, pois me adentrei numa mata de espinhosas juremas e os espinhos me arranharam; já se fazia escuro e com esforço reencontrei a vereda de volta à cidade... Então jantei um bom prato de macarrão, arroz, tomate  e carne no único hotel local. Em seguida passeei pelas ruas, vi a praça cheia de jovens, alegres, música vindo não sabia de onde, paqueras, atmosfera que me fez sentir saudade de mim mesmo jovem;  pelas 22h, fui para pousada tomar banho e dormir. Adormeci tranquilo, como alguém ausente, mas pertencente àquela terra e àquele céu com sua noite estrelada.
Disseram-me  que ali o sol nasce pelas 6h. Decidí que partiria nessa hora e assim combinei com Milton Guedes, primo residente em Aguiar e que foi de uma gentileza sem fim ao se dispor a vir até Ygaracy  me acompanhar na corrida.
Acordei às 4:30 e não mais sono. Abri o ferrolho da janelinha que dava para o horizonte e só vi escuro, nada do alvorecer; a lua, quase cheia, se escondia atrás de ulguma serra. Li um pouco. Vesti a roupa escolhida , calçei meu rodado tênis Newton, apropriado ao modo de correr de quem corre ou já correu descalço,  me alonguei, comi duas torradas com pasta de amendoim, tomei um suco de acerola e desci para rua às 5:30,  aqueci-me com leve trote; 10 para as 6 chegou meu primo. Combinamos de ele ir 3km à frente e me esperar para me "abastecer" com água e repositor energético. Assim, ao surgir a luz direta do Astro Rei,  parti.
Corri 3 km até entrar à esquerda, numa outra estrada mais estreita, que segue até o Aguiar. Aquele primeiro trecho fiz em  15 minutos, rápido demais para mim. Isso se deu devido a poeira deixada pelos carros, cujas idas e vindas me deixavam lufadas de poiera  marrom quase vermelha. Disso me aliviou bastante os óculos escuros apropriados à proteção total dos olhos, porém nariz e boca... "Isso é que é comer poeira!",  me disse.
Na dita entrada estava meu primo, deu-me água e adiantou-se mais 3km.
Agora quase não passava carro e a corrida começou a ficar interessante. Comecei a reconhecer aquelas curvas, as ladeiras, a vegetação eterna, principalmente a espinhosa jurema. Meu ser nordestino, daqueles sertões, despertava da longa noite do elástico tempo. Ouvia meus próprios passos a deslizar sobre os pedregulhos, tudo parecia parado e silencioso, às vezes interrompido por  um ou outro canto de pássaros aqui, ali, longe.
O sol subia pelo lado direito do céu, a lua se apagava lentamente à esquerda, aos poucos esquentava-me a face direita, quebrei o boné de lado e adentrava-me mais e mais naquelas terras tão de mim e por mim esquecidas... Diminui o ritmo, escutei meu corpo, respiração, ajeitei a postura, estava contente, estranhamente só e ao mesmo tempo cheio de paisagens e pessoas já idas deste mundo:  "minha suave mãe, obrigado por tanto, dá-me persistência; meu áspero pai, dá-me força e coragem". Km 6, mais água, Milton segue para o 9.
Agora sinto-me pesado, passos lentos, flagro-me afundando em ondas de sensações difusas... "Ai meu deus, diabo é isso!".
Vem-me à mente "personagens" construidas por meu amigo Jovino, o Ermitão, como o apelido, criador de uma parafernália técnico-teórica, a Arte Org, uma terapêutica brasileira inovadora. Dentre suas criações, uma fala do Velho Denso que às vezes corporificamos...
Lento e pesado, assim  me sinto, nem tanto velho, porém denso. Por uns instantes fraqueza e pesadês nas pernas...  reboliço no peito,  onde por dentro um coração distante, a pulsar não sei como... Imagens, sensações e pensamentos confusos, difusos  ...mas e... o todo de que tanto aprendi,  vivi  e pratiquei na Arte Org do meu amigo Ermitão...? Algum outro eu em mim agora?   Aos poucos vou saindo dessa atmosfera subterrânea, a respirar melhor, abrindo mais os olhos rumo ao horizonte, a perceber e sentir o entorno, meu corpo, "estou quente? Frio? Como me sinto?" Estou a melhorar e melhoro até me livrar daquelas lembranças e saudades, sair daquele estado e voltar ao presente, no que estou a realizar, porque correr é o mais importante no momento e para isso eu vim.
Então uivo, ouço ecoar meu grito naquelas serras e caatinga; canto alto e para a natureza: "a natureza..."
Vejo um açude e os marrecos, os Mergulhões, tanta vida e verde naquelas securas. Aquela rocha e um urubu nela, deus do céu!, parecem eternos... mas chega de saudade, estamos aqui, no magnífico agora, sensação térmica já subindo, Km 10, lá vem uma camionete à esquerda,  numa estrada diagonal, cheia de homens, mulheres e crianças, uns em pé, outros sentados... Pára me esperando passar, todos olham, usam a mão à testa como anteparo ao sol, escuto uma voz, "mulher, deve ser promessa que tá pagando", rio e me digo "não é, mas bem que poderia ser".
Km 12 e já tenho  certeza de que terminarei bem minha corrida solitária; solitária numas, porque comigo estiveram outras presenças... minha companheira Lucia Elena, minha Lucinha, "presença" estimuladora daquele momento e dele participante...
E sobe e desce ladeiras, um carro vem, buzina, aceno, tô chegando - me alegro - canto o que me vem, um aboio... ê-êêê, êêêê- gado manso.... De repente uma ladeira sem fim, de um quilômetro, "essa ladeira, que ladeira é essa, essa é a ladeira da preguiça"...  chego ao topo, avisto o Aguiar. Mais contentamento. Miltom diz que me esperará na entrada antiga da cidade; ok, acelero, mais um carro vem, poeira, tudo bem, canto baixinho: "há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração, toda vez que o adulto balança o menino me dá a mão" e corro firme em minhas passadas... corpo agora em harmonia com tudo...
Chego à entrada nova da cidade,  pessoas conhecidas e desconhecidas me cumprimentam, Huguinho de tio Genival! Pessoas da segunda família de meu pai - Leuda e Gerleuda - me esperam passar; aceno, chego onde está Milton, mas de repente me dá vontade de voltear a cidade e assim corro o último Km pelas ruas antigas, velhas conhecidas minhas, por onde a criança que fui correu e brincou. "Bom dia", "bom dia" e mais cumprimentos e então paro, morto de contente,  no centro antigo do velho Aguiar, entro no carro do primo e vou prá sua casa tomar um refrescante banho, comer e descansar. Mais tarde tomaria cerveja, ouviríamos música, conversaríamos, eu e parentes e amigos, todos de antigos tempos. Aí já seria outra conversa, outro tópico para algum outro lugar.
Em nenhum momento me precupou a questão de saber em quanto tempo faria o percurso, simplesmente por que isso estava fora de questão, quis apenas viver aquela corrida, embora, para minha surpresa, tenha feito em 1:35min os 15 quilômetros.
Fim de um sonho preparado durante 2 meses de treinamento,  orientado pelos compententes profissionais da  Ação Total Assessoria, orientações cuidadosas, das quais me lembrei bem e por isso a esses profissionais também dediquei significativos  pedaços daquela corrida.