terça-feira, 1 de maio de 2012


Dos meus Limites, Dores e Competição

Correr me ensina a  envelhecer. Tem implicações  física e mental, com tudo aí presente, que  sejam: sensações, atenções , percepções e pensamentos a permear por todo o corpo.
Desde novembro/11 não posto nada aqui. Me desanimo, a me perguntar pra que escrever sobre o que sinto e penso ao correr. A quem interessa,  ...se a mim importa mesmo simplesmente correr?
O fato é que comecei a gostar de reler meus próprios relatos de corridas feitos aqui neste blog. A tê-los como aliado da memória. Às vezes é como um olhar do alto da montanha sobre os caminhos e asfaltos percorridos em variadas distâncias, lá pelos vales, planícies, montanhas e desfiladeiros. E quanto suor, dores, prazeres e alegrias para chegar onde me encontro!
Também gosto de ver outros lerem, postarem comentário. Gosto e mais gosto quando alguém por vias diversas se inspira neles para começar a movimentar-se seja em caminhada ou corrida.
Minha última corrida “oficial” foram os 16 Km do Circuito Athenas, em dezembro/11. Corri com dores nos joelhos, preponderante no direito. O diagnóstico “Condromalácia nível IV”, com o qual há muito me debatia, invadiu-me de preocupações. Uma nuvem de incertezas, tempestade de interrogações, medos, receios, sendo mais constante a pergunta: é meu fim como corredor de tão pouco tempo, apenas três anos? Eu que me vejo, velhinho, a trotar no mais vagar que seja? Parar agora no 5.7?
Por muito tempo, desde então, tenho corrido com o pensamento fixado nos joelhos. Confesso: se não fossem uns mecanismos próprios que uso em momentos ruins, teria me arruinado na depressão ou me apavorado no pânico.
Desde então estou a refazer meu estilo/forma de correr. Voltei a usar regularmente um tênis; descalço, agora,  só em trotes suaves na grama. Uso um tênis apropriado a um modo de correr mais natural. Sim, porque apesar das dores, correndo descalço foi quando mais me senti bem, uma sensação de leveza e o despertar de lembranças infantis, como se fosse um inconsciente corporal vindo à consciência. Mas os joelhos - mais o direito- acenderam-me uma luz vermelha, piscando em voz: “ei, cê já passou dos cinquenta” 
Comecei a ver meu declínio muscular chegar. A ruminar reflexões sobre a brevidade da vida, aceitei. Ok, é inexorável. Precisava fazer algo. Tenho feito musculação caseira para fortalecer principalmente as pernas. Nos últimos meses intercalei corridas com esses exercícios. Foram treinos em busca de novas formas de movimentar os pés, os ombros, pélvis, braços. Todo o cuidado na transferência de peso, de um passo a outro, passo a passo.  E os efeitos vieram em forma de novos prazeres ao correr, uma nova confiança. E para meu contentamento, em significativa diminuição das dores.
Por isso, há dois meses me inscrevi para participar das “10 milhas Mizuno”, realizada domingo passado, 28/04.
Foram 16 Km de contentamento. Uma corrida conservadora, no sentido de conforto.  Competir não me interessa nessas provas. Gosto sim, de me testar e perceber e lidar com meus limites. E domingo foi o que mais fiz. 
Como cheguei atrasado lá no Joquei Clube, local da partida, fiz breve trote e entrei na fila, no meio dos mais ou menos 500 que largam na frente, ao contrário das vezes anteriores quando largo junto aos 500 da rabeira. Neste caso, gosto de avançar pouco a pouco e se, por exemplo, tem 5.000 participantes, ultrapasso muita gente. Mas domingo passado vi o turbilhão passar por mim, eram 6.000, segundo os organizadores, e fui ficando para trás... À medida que passavam por mim, fui me interiorizando, calma Geraldo, respire. Nesta multidão você está sozinho, não está competindo com ninguém nem com você mesmo, aprenda consigo.
É grande a energia entre os corpos em movimento, também  é  grande a tentação de se querer acelerar o passo para acompanhar a turba. Contenho-me, que se vayam ellos. Corro e observo as tão variadas pernas e formas de correr dos outros, homens e mulheres.
Dividi, como estratégia, fazer o percurso em três ritmos: 5 Km bem lento, 5 em média e os 6 últimos a me explorar.
Mais difícil foi encontrar um ritmo e velocidade harmônicos. O coração me orientava ao estar depressa, mas com que ritmo? Ou então o ritmo estava ótimo, quase música, mas a velocidade quase parando, assim nunca chegaria. Ou a dor vindo e me obrigando a reorientar tudo: postura, percepção e meus movimentos. A dor sumia, aprendia com ela.
Pela metade da prova a sensação de ser ultrapassado foi gradativamente se invertendo e lá fui eu passando os outros. Isso é bom assim,   sem que eu buscasse nem me esforçasse para  acontecer. Na minha. Tem gente, mais os jovens, já percebi, que não gosta de ser ultrapassada, principalmente por um senhor de cabelo todo branco. Aceleram e fazem questão de avançar, e vão; daqui a pouco tô eu de novo, na minha, passo ele...   e de novo ele me passa e de novo eu, até que me irrito e resolvo, consciente de minhas passadas, deixá-lo prá trás de vez. Isso ocorre, sim.
Outro se pareou a mim e me quis como pace, talvez. Ficou uns 10 minutos correndo, sempre ao meu lado. Gosto até de, às vezes, puxar conversa, quando percebo que não há clima de competição. Não era o caso. Um cara enorme, grudou-se ao meu lado a me atrapalhar o ritmo e a concentração,  com seus gemidos e fungados. Mas que carrapato! Decido -  discretamente - passar para a lateral da pista e sumo de vista dele.
E tome gritos de alegria sob a garoa no domingo em São Paulo. E grito eu também, ainda mais ao cruzar o portal de chegada, sem dores no corpo -  e com vontade de correr um pouco mais.
Ótima corrida, depois dela, preciso pensar bem como será daqui por diante o meu correr.